Por Miloš Duraković
O Digital Networks Act: regras de telecomunicações que vão além das telecomunicações

O Digital Networks Act (o regulamento europeu das redes digitais) foi apresentado em janeiro de 2026, depois de vários adiamentos, e a maior parte da imprensa arquivou-o como regulação de telecomunicações e passou à frente. É um erro para quem constrói serviços que dependem da economia da conectividade, o que hoje inclui quase toda a gente.
O regulamento reescreve a governação das comunicações eletrónicas na Europa. Três dos seus temas vão muito além dos operadores de rede: o espetro, as obrigações de segurança e a velha disputa sobre quem paga a capacidade da rede.
O que vem substituir
As telecomunicações europeias regem-se pelo Código Europeu das Comunicações Eletrónicas, uma diretiva de 2018 que os Estados-Membros transpuseram a ritmos diferentes e com interpretações diferentes. O resultado é aquilo a que a Comissão chama, com razão, um mercado único fragmentado: 27 reguladores nacionais, 27 regimes de espetro e operadores cuja escala esbarra em fronteiras que não existem para os seus concorrentes.
O Digital Networks Act é a tentativa de resolver isso e faz parte do roteiro mais amplo One Europe One Market, que inclui também a Carteira Europeia de Empresas e um pacote de cibersegurança.
Os temas principais
Harmonização do espetro
O espetro é licenciado a nível nacional, com calendários nacionais e preços nacionais. Para um continente que quer instalar infraestrutura móvel coerente, isto é uma desvantagem estrutural. O regulamento aponta para licenças mais longas e mais harmonizadas e para uma atribuição mais coordenada.
Porque importa fora das telecomunicações: uma política de espetro coerente é condição para uma cobertura coerente, e os pressupostos de cobertura estão na base de tudo, desde o desenho de produtos IoT ao seguimento logístico e às funcionalidades dos veículos conectados. Se vende hardware que depende de conectividade móvel em vários Estados-Membros, a fragmentação já é, neste momento, também um problema seu.
Um verdadeiro mercado único das comunicações eletrónicas
O regulamento caminha para uma regulação ao estilo do país de origem e para menos obstáculos na autorização para operar em vários Estados-Membros, com o objetivo de permitir a concentração e a escala transfronteiriça.
Porque importa: as telecomunicações europeias são invulgarmente fragmentadas quando comparadas com as dos EUA ou da China, e essa fragmentação tem mantido as margens dos operadores apertadas e o investimento abaixo do que a Comissão gostaria. A concentração é o objetivo declarado. Se isso vai dar redes melhores ou apenas menos operadores, é aí que está a discussão.
Requisitos de segurança das redes
Obrigações de segurança para a infraestrutura de rede, que se somam à Diretiva NIS 2 em vez de a substituírem. Os operadores de telecomunicações já são entidades essenciais ao abrigo da NIS 2, por isso trata-se de pormenor setorial adicional e não de um regime novo.
Porque importa: se vende a operadores de telecomunicações, conte com mais questionários de segurança. O escrutínio da cadeia de abastecimento que a NIS 2 iniciou continua aqui.
Convergência entre nuvem e conectividade
Um dos temas mais interessantes. As redes e a infraestrutura de nuvem convergiram do ponto de vista técnico, com a computação de proximidade (edge computing), a virtualização das funções de rede e operadores que oferecem capacidade de computação na periferia da rede. O quadro regulamentar tratou-as como indústrias separadas. O regulamento começa a corrigir isso.
Porque importa: cruza-se diretamente com o Cloud and AI Development Act. Ambos visam a capacidade de infraestrutura europeia, por lados diferentes.
A questão da «contribuição justa»
É a parte mais disputada e a razão pela qual a proposta foi adiada tantas vezes.
Há anos que os operadores de telecomunicações defendem que um pequeno número de grandes fornecedores de conteúdos e aplicações gera a maior parte do tráfego da rede e devia contribuir para os custos da rede. Os fornecedores de conteúdos respondem que já pagam a sua própria infraestrutura e o trânsito, que os consumidores já pagam o acesso e que uma taxa baseada no tráfego é um imposto sobre os serviços populares que acabaria por chegar aos consumidores.
Por baixo da discussão comercial está uma questão de neutralidade da rede. Qualquer mecanismo que faça o custo depender da origem do tráfego cria um incentivo para tratar o tráfego de forma diferente consoante a origem.
O que a proposta diz de facto: o texto publicado a 21 de janeiro de 2026 não prevê nenhuma taxa de rede. Em vez disso, acrescenta um mecanismo voluntário (artigos 191.º e 192.º): orientações do BEREC sobre a cooperação em matéria de interligação IP e tráfego, e um procedimento de conciliação em que uma parte num litígio técnico ou comercial pode recorrer ao seu regulador nacional, com o BEREC a emitir parecer sobre o caso. A interligação passa também a abranger as redes geridas por fornecedores de conteúdos e aplicações, como as CDN. Associações de consumidores e de direitos digitais pediram ao Parlamento que elimine o mecanismo, e algumas empresas tecnológicas receiam que ele leve a taxas de rede por outra via. Porque importa: se durante a negociação fosse acrescentado um mecanismo de contribuição, a economia da entrega de serviços de grande largura de banda na Europa mudaria. O vídeo, os jogos, a distribuição de software de grande dimensão, a inferência de modelos em escala e tudo o que movimenta volumes a sério seriam afetados, e o custo não ficaria pelos maiores fornecedores. Chegaria aos preços das CDN, aos preços do trânsito e, mais cedo ou mais tarde, a quem compra largura de banda.
Este continua a ser o tema a acompanhar. O resto do regulamento é governação técnica. Este pode mexer nos preços.
O que deve fazer uma empresa que não é de telecomunicações
Muito pouco no imediato, e algumas coisas em que vale a pena pensar.
Se o seu produto depende de entrega de grande volume a baixo custo, estime a sensibilidade. Não porque venha aí uma taxa (a proposta não prevê nenhuma), mas porque saber o que um aumento significativo do custo de saída de dados (egress) ou do trânsito na Europa faria à sua economia unitária vale bem uma tarde. A maioria das equipas nunca fez esta conta.
Se vende hardware conectado em vários países, acompanhe o tema do espetro. A harmonização é uma boa notícia para si. Elimina um custo real de engenharia e certificação por mercado.
Se vende a operadores de telecomunicações, conte com mais documentação de segurança. Os mesmos documentos que servem para a NIS 2 e para o Regulamento de Ciber-Resiliência servem também aqui. Prepare o dossiê uma vez.
Se opera na periferia da rede ou vende computação de proximidade, o tema da convergência é consigo. A fronteira regulamentar entre operador de rede e fornecedor de nuvem está a ser redesenhada, e é isso que determina que obrigações se lhe aplicam.
Uma avaliação franca
O Digital Networks Act é uma disputa sobre a estrutura do mercado disfarçada de modernização técnica. A Comissão quer operadores europeus de telecomunicações maiores e a investir mais nas redes. Os operadores querem concentração e um mecanismo de contribuição. Os fornecedores de conteúdos não querem nem uma coisa nem outra. As associações de consumidores querem preservar a neutralidade da rede. Os reguladores nacionais querem manter os seus poderes.
Dossiês com tantos interesses opostos não avançam depressa, e este já foi adiado várias vezes antes de ser publicado. Conte com uma negociação longa. A 10 de outubro de 2026, a comissão competente do Parlamento (ITRE, relator Michał Kobosko) ainda não tinha apresentado o seu relatório, e o Conselho continuava a analisar o texto no grupo de trabalho das telecomunicações, sem orientação geral.
O que vale a pena saber agora é a direção, mais do que o pormenor. A política europeia caminha de forma consistente para menos fornecedores europeus de infraestrutura, mas maiores, regras mais harmonizadas e mais escrutínio da dependência de infraestrutura não europeia. O Digital Networks Act, o Cloud and AI Development Act e os programas de financiamento descritos no nosso guia de financiamento europeu para tecnologia são expressões da mesma estratégia.
Onde isto se enquadra
A lista completa da legislação em preparação está no nosso mapa da legislação digital europeia, e as regras que já se aplicam ao seu sítio web e aos seus produtos estão no nosso guia de conformidade digital europeia para 2026.
Como podemos ajudar
Desenvolvemos e operamos sistemas de software e infraestrutura para empresas de toda a Europa, incluindo as partes mais sensíveis à conectividade: entrega de conteúdos, implementação na periferia da rede, modelação de custos e a monitorização que mostra para onde vai de facto o gasto em largura de banda.
Se quiser perceber o que uma mudança na economia das redes europeias faria a um produto concreto, ou precisar do mapa de infraestrutura e dependências por onde começa a maioria destas questões, escreva para office@c9group.dev. Mais informação na página de otimização de custos AWS e na página de entrada no mercado europeu.
Somos engenheiros, não consultores regulatórios, e isto é uma proposta em fase inicial de negociação, não legislação em vigor.
Conformidade na UE
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